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"Estou condenado a ser livre. Isso quer dizer que nenhum limite para minha liberdade pode ser estabelecido, exceto a própria liberdade"                                                                      JEAN PAUL SARTRE, filósofo francês, O SER E O NADA (1943)

 

   
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site da http//www.telesurtv.net

A teleSur –uma

preciosa descoberta 

 

Mario Drumond

Jornalista e realizador audiovisual

(escrito em Belo Horizonte, 16 de maio de 2006)

mario@dataflow.com.br

 

 

Estranha sensação... Algumas semanas atrás capturei por acaso, via internet, o sinal da teleSur (www.telesurtv.net), uma emissora de televisão venezuelana que tem como meta integrar a América Latina por meio da linguagem audiovisual e jornalística. A sensação foi estranha porque logo nos primeiros minutos era como se eu estivesse vendo televisão pela primeira vez em minha vida! E desde ali, também pela primeira vez, tornei-me assíduo espectador de TV, ou melhor, de teleSur.

 

Em verdade, desde 1964, quando eu tinha 14 anos de idade, a televisão sempre me pareceu algo inteiramente inútil e dispensável. Recordo-me agora de uma só vez em que me senti lucrando por estar diante de um aparelho de TV, que não fosse para assistir a alguma obra cinematográfica do meu agrado. Foi durante alguns meses, ao final da década de 1970, quando Glauber Rocha logrou colocar no ar um programa semanal de televisão de fato televisível e inteligente: o Abertura. Para mim, foi esse o único programa periódico de TV produzido pela mídia brasileira, desde 1964, que merece ser conservado - pelo menos em minha memória.

 

Como aquela experiência foi de poucos meses e restrita a um único programa - e já se vão quase trinta anos que me aconteceu - com o tempo tornei-me cético e passei a crer que seria impossível fazer algo útil em audiovisual televisivo, não por questões relativas à linguagem em si, mas pelo poder que agrega aos interesses oligopólicos e plutocráticos que o dominam como instrumento de comunicação de massa, aos quais se tornara totalmente submetido. Deste modo, no que me diz respeito, o aparelho de TV é um artefato útil tão somente para visionar obras produzidas para cinema, em sessões caseiras, apesar das perdas inevitáveis da tela em miniatura e da qualidade sonora.

 

Porém, com a recém-descoberta da teleSur, aquela estranha sensação inicial provocou-me, em poucas semanas, uma mudança radical nas minhas concepções de realizador e estudioso do audiovisual. A teleSur demonstrou que é possível, sim, fazer algo útil, aliás, muito útil e, talvez, poderosamente útil, através daquilo que até hoje tem sido, para mim, um perverso instrumento de alienação, desintegração e desinformação dos povos e das pessoas. E, para que o leitor não pense que isto possa ser uma recaída no otimismo por parte de um cético, devo dizer porque acredito na revolução que a teleSur nos promete.

 

 

Linguagem

 

Por sorte minha, um dos primeiros programas que vi na teleSur foi um excelente documentário sobre o cineasta venezuelano Clemente de la Cerda (1935 - 1984), do qual infelizmente nunca vi um filme e nem tinha ouvido falar - o que já dá uma dimensão da ignorância em que me vinha mantendo sobre nossos vizinhos latino-americanos. Clemente tinha uma postura de inquietação intelectual muito semelhante à de Glauber Rocha. Por sinal, a semelhança entre os dois me pareceu até mesmo física. Mas como cineasta, pelos trechos que foram exibidos no documentário, achei-o mais próximo de Rogério Sganzerla. Como Glauber e Rogério, Clemente morreu cedo mas deixou-nos um legado de obras definitivas para cultura de seu país e para a cinematografia universal. Outra semelhança dele com os dois cineastas brasileiros seus contemporâneos é que ele escrevia, e escrevia muito bem. A diferença é que Clemente teve uma boa experiência em televisão nas décadas de 1940-50, antes de se assumir como cineasta de vanguarda nos anos 1960-70. Este dado é importante porque possibilitou a ele uma vivência de dentro do processo de produção televisiva - ainda enquanto ela nascia no território latino-americano - que a sua inteligência privilegiada soube transformar em análises críticas de espantosa acuidade.

 

O documentário exibe uma página de um de seus livros, a qual podia ser lida em vídeo pelo espectador e foi também lida quase toda em áudio (locução em off) - num plano muitíssimo ousado para televisão; um contundente grifo de mensagem. Nesse fragmento de texto o cineasta denuncia a gradativa usurpação, pelo veículo televisivo, dos papéis subjetivos da narrativa audiovisual e da câmera pela interposição do narrador (ou repórter) e do veículo (instituição) entre o conteúdo da mensagem e a inteligência do espectador. Não tenho as palavras exatas de Clemente, não encontrei seus livros em lugar algum, mas, pelo que entendi, a conclusão de seu texto é a de que, nessa usurpação de linguagem, o veículo subtrai aos protagonistas a função de transmitir a informação para se apresentar ele próprio, e ilegitimamente, como o portador da "verdade", a qual manipula a seu critério.

 

Não é à toa que a direção do documentário editou o inusitado plano-texto numa produção para a teleSur. Não será preciso mais de cinco minutos diante dela para perceber que seus diretores são discípulos das idéias de Clemente, em especial, quanto à essa sacada genial do cineasta. Nessa questão importantíssima, a teleSur resgata integralmente para a linguagem televisiva - e com uma qualidade fantástica - justamente os papéis subjetivos da câmera e da narrativa audiovisual, colocando de volta ao primeiro plano os protagonistas da informação - e portanto a verdade integral dela - diretamente em contato com o espectador. E com uma competência extraordinária em todos os níveis de edição.

 

Por tal postulação de linguagem, na teleSur todos os elementos componentes e construtores do audiovisual estão coordenados sob um rigor de direção e de produção que eu jamais observara em qualquer outro canal de televisão, e não me refiro apenas aos brasileiros e latino-americanos. E isto é só o começo.

 

 

Qualidade de edição

 

Nenhuma emissora de TV que eu tenha visto, inclusive algumas que se auto-proclamam "a melhor do mundo", chega aos pés da teleSur em qualidade de edição audiovisual "24 horas por dia". A começar pela câmera, cujos posicionamentos e movimentos são dirigidos cuidadosamente para o melhor enquadramento fotográfico do ponto de vista artístico e não comercial. Prioriza-se a assimetria da composição, as tensões visuais inquietantes, os plongés, os movimentos perturbadores e provocadores da inteligência do espectador, em lugar dos convencionais enquadramentos centralizados, dos planos médios banais e dos movimentos óbvios e hipnóticos que se tornaram quase obrigatórios às câmeras de TVs do mundo inteiro. Em estúdio, nota-se a preocupação da teleSur com a qualidade cenográfica e de iluminação, sempre discretas, de bom gosto e artisticamente bem compostas, em lugar dos exageros cenográficos-luminosos que nos são estertorados em extremos de delírios bregas nas TVs conhecidas. O mesmo se pode dizer em relação à escolha dos profissionais em cena e aos cuidados de seus vestuários, maquiagens e cabelos. Ainda no visual, há a se destacar a qualidade gráfica e tipográfica das titulagens, legendas e gráficos da teleSur, sempre claros, bem compostos, legíveis e respeitando as boas regras de proporção e composição gráfica na relação imagem-textos do quadro exibido, e no uso de cores nobres e bem combinadas. Tudo isto vem associado a um excelente trabalho de computação gráfica, animações e efeitos visuais utilizados com parcimônia, adequação e elaboração criativa, em muitos casos, primorosa.

 A direção de arte da teleSur sabe muito bem o que fazer e como fazer. Consegue uma sofisticação e um requinte de imagem, ao par de um invulgar despojamento e limpeza de acabamento, que resultam numa qualidade de apresentação visual de alto nível profissional e alcança o patamar das mais bem cuidadas realizações cinematográficas.

 

Iguais cuidados são tidos com o áudio. A trilha sonora da teleSur é brilhante em qualidade e harmonia, das vinhetas aos conteúdos editados. Dispondo dos mais variados recursos acústicos e eletrônicos, a direção musical da teleSur vale-se de originais temas melódicos, populares e eruditos, e do uso criativo e adequado de efeitos sonoros a fim de sustentar e enriquecer as imagens, sublinhando e enfatizando as locuções e narrações de maneira ao mesmo tempo suave e marcante. Descartam-se, na teleSur, os estardalhaços cacofônicos e autistas verificados na poluição sonora da maioria das grandes redes de televisão. A locução jornalística dos âncoras, moderadores e repórteres da teleSur é direta e firme, quase neutra, mas sem perda da sensibilidade dramática, e completamente desvencilhada das afetações vulgares e maneirismos imbecilizantes hoje verificados com cada vez mais irritante frequência no jornalismo televisivo das grandes redes.

 

Esse domínio das duas pistas da linguagem (áudio e vídeo) não será menor, evidentemente, na etapa final e mais importante da edição, que é a montagem. Nela, sente-se que a teleSur se cuida para não avançar demais em relação às outras mídias televisivas que estragaram o gosto do público e viciaram o espectador na chatice do discurso linear e na obviedade sequencial. Ela então se cuida para ser aceita como boa. Só que é boa mesmo! Ainda assim, a montagem da teleSur - que prima pela simplicidade e pelo despojamento - é rica em ritmos e timbres audiovisuais e vai aos poucos introduzindo elementos novos e avançados de linguagem, como nas sequências de planos e contra-planos jornalísticos, de entrevistas e mesas-redondas, montando-os muito mais dialéticos e criativos do que nas outras TVs. Eu não diria que a teleSur faz uma montagem vanguardista como resultado final, se comparada à liberdade de edição cinematográfica, mas que ela pratica uma montagem com diversidade e movimentação muito acima da média e para além, em ousadia, de qualquer outra edição televisiva que conheço.

 

As grandes redes de televisão buscam moldar seus públicos num perfil de espectador alienado, egoísta, gregário e globalizado. Algumas chegam mesmo a querê-lo estúpido e até boçal. Em geral, tratam o espectador como um idiota ou um débil mental, e se acham no direito de se intrometer na vida dele de maneira arrogante e grosseira.

 

Muito ao contrário, a teleSur se quer moldada pelo espectador consciente, preocupado com as questões sociais, independente e, antes de tudo, latino-americano. A teleSur não só respeita a inteligência do espectador; ela o trata bem, muito bem, com distinção, consideração e gentileza.

 

E que não se pense ser a teleSur, elitista. Ela é uma emissora de TV muito popular. Só as elites ignorantes acreditam que o povão gosta de lixo; quem gosta de lixo são elas, as elites. Na verdade, a televisão que fazem são para elas mesmas - e a empurram goela abaixo dos povos do mundo à força de métodos (anestésicos) audiovisuais que vêm sendo desenvolvidos desde os sórdidos inícios da propaganda comercial e nazista.

 

"A massa ainda há de comer o biscoito fino que eu fabrico", dizia o escritor Oswald de Andrade. A teleSur é a realização mais ampla e mais concreta que conheço desse prognóstico oswaldiano.

 

 

Conteúdo

 

Tudo o que acima vem exposto é colocado a serviço de um conteúdo pautado em critérios, agora sim, da maior vanguarda editorial de comunicação de massa que já se viu, seja em mídia impressa ou eletrônica. A teleSur tem por cenário a América Latina toda, do México e Caribe ao extremo Cone Sul, e tem por protagonista principal o povo latino-americano. Assim, ela se coloca a serviço de suas nações e não de seus estados e governantes.

 

Sua grade é desenhada a serviço da auto-estima, do engradecimento e da independência do seu principal protagonista e do cenário em que vive. Nela tem voz o operário, o camponês, o indígena, os explorados, as reivindicações e as lutas populares, suas desditas, suas conquistas. Dela participam os melhores artistas e pensadores de todas as expressões, eruditas e populares, desde a vanguarda contemporânea aos grandes mestres do passado. Frequentam-na, igualmente, as mais expressivas e progressistas lideranças políticas e populares da atualidade e da história. Nessa grade não há espaço nem tempo para baixarias de mau jornalismo, nem para o banditismo e a divulgação desnecessária de seus crimes, nem para os oportunismos popularescos de auditórios, nem para enganações de pseudos-entretenimentos de má qualidade e origem duvidosa, nem para perversidades audiovisuais de qualquer gênero - e muito menos para as porcariadas alienígenas enlatadas. Além disso, - oh! Glória! - não há publicidade comercial.

 

Política, cultura, riquezas naturais, tradições, folclore, comida, energia, trabalho, artes, educação, lazer, esportes e outros temas de interesses nacionais e continentais se distribuem bem equilibrados naquela grade, suportados por camadas sólidas do melhor, mais bem preparado e mais bem equipado jornalismo televisivo que conheço.

 

"Vamos a conocernos " - diz um de seus belos slogans.

 

Documentos geniais em séries como Caminantes, Nahui - El Rostro del Ecuador, Memorias del Fuego, Destino Latino-America, Estacion Submarina, se permeiam a produções de documentários culturais e periodísticos (Cultural Doc e Periodístico Doc) e a edições especiais jornalísticas como Agenda del Sur - La Revista, Mesa Redonda, Realidades e Sintesis en Latinoamericana, além de outros programas que ainda não tive a oportunidade de conhecer, compõem, junto aos grandes "Noticieros", uma movimentada grade televisiva que tem como único defeito o de tornar cada vez mais difícil o ato, para o meu caso absolutamente necessário, de desligar o aparelho (ou "desconectar" do site).

 

Pela primeira vez vi, em sinal de TV no Brasil, imagens tomadas em Palácios de Governo, Casas Legislativas, ruas, centros urbanos, regiões rurais, campos, desertos e florestas de países como Venezuela, Colombia, Bolívia, Equador, Peru, Paraguai, Cuba, México, Nicarágua, Haiti, para citar apenas os que foram matérias nas semanas passadas. Até então só chegara aos meus olhos umas poucas imagens do tipo vindas do Uruguai, Argentina e Chile, mesmo assim em momentos que se já vão longe e me dóem recordar.

 

Nos noticiários da teleSur é assídua a presença de políticos como Fidel Castro, Hugo Chaves, Evo Morales, Tabaré Vasques, Nestor Kirchner, Álvaro Uribe, Alejandro Toledo, e até, de vez em quando, Lula (infelizmente, parece que o Brasil é o único país latino-americano que se mantém distante da teleSur)[1]. Também estão lá os líderes políticos, ministros e autoridades de todos os países latino-americanos. Atuais líderes revolucionários como Daniel Ortega, Raul Reyes (Farcs), Ollanta Umalla, Subcomandante Marcos, entre outras lideranças sindicais, estudantis e políticas de diversas origens de classe e matizes ideológicos progressitas e revolucionários também frequentam os noticiários e especiais da teleSur, ao lado de grandes líderes do passado como Che Guevara e Raul Sendic. Além disso, a teleSur conecta-se com o resto do mundo, em coberturas exclusivas ou filtrando o suco de interesse das agências de notícias internacionais, sempre dando preferência às frentes de resistência ao imperialismo, onde estiverem, seja no Nepal, na Nigéria, em Bagdá, na Coréia do Sul, na Europa, em Teerã, ou nos próprios EUA..

 

Mas, como já disse, o protagonista mais importante de todos é o povão: camponeses, operários, indígenas e caboclos de todas regiões da América Latina, inclusive as mais longínquas e olvidadas, estão lá, nos ensinando as coisas de suas terras, de suas tradições, de suas culturas, de seus labores. E como são belos e falam bem, os latino-americanos! E como são belas as regiões em que vivem! Não falo de uma pseudo-beleza formal, estereotipada e cenografada pela enganação midiática. Eu me refiro à beleza verdadeira, autóctone, às vezes rude e até áspera, dos ricos rincões de humanidade que nos vêm sendo revelados pelas câmeras e microfones da teleSur. E, como postulava Clemente de la Cerda, sem a impertinência afetada de reporterizinhos medíocres se colocando, em nome de seus "veículos", entre nós, espectadores, e os protagonistas da mensagem audiovisual, quase sempre a insultar a nossa inteligência.

 

Cabe aqui o elogio à toda equipe da teleSur, pela garra com que encaram o trabalho que fazem e a consciência que demonstram ter da importância dele, o que nos é perfeitamente visível, seja em cena, nos bastidores ou nas instâncias administrativas e de produção.

 

Só para fazer o leitor que nunca viu a teleSur ficar babando de inveja, vou relacionar, ao final deste texto, alguns dos programas que tive o privilégio de visionar nas poucas semanas em que me tornei espectador teleSur.[2]

 

Se estivesse vivo, Oswald de Andrade iria se deliciar com a teleSur porque ela é exatamente "a voz (e a imagem) do homem do Equador" que o grande escritor previu em seus textos filosóficos "maravilhosamente bem escritos" como aquele que, quando conquistasse a sua vez de falar, iniciaria a grande revolução demarcadora do fim do velho e obsoleto patriarcado capitalista e do início de uma nova era: a do novo e revolucionário matriarcado socialista do homem natural-tecnizado, no qual a sociedade, graças ao uso social e benéfico da tecnologia, será a grande mãe dadivosa e provedora de todos os seus filhos, ou seja, a era que a Revolução Bolivariana de Hugo Chavez inaugura para o mundo.

 

- Viva a Venezuela!

 

 

Hugo Chavez

 

Já que acima mencionei a inveja devo agora confessar uma que me vem tomando o espírito nestes últimos anos: a de quem vive sob o manto solar da Revolução Bolivariana capitaneada por Hugo Chavez, ou seja, a de quem vive numa pátria que tem por presidente este genial revolucionário moderno.

 

Ter por presidente alguém que tenha lido Thomas Morus e Simon Bolivar e é capaz de citar numa só frase, de improviso e com pertinência, Jean-Paul Sartre e Benedicto XVI (A Revolução do Amor), como pude ver pela teleSur na chegada de Chavez em Viena para uma reunião de cúpula internacional; ter por presidente alguém compromissado com uma história que conhece bem pelas melhores letras e que tem a coragem de liderar - com o risco da própria vida e em franco desafio aos super-poderosos poderes que nos ameaçam e nos assolam - a realização de uma obra social e cultural do porte desta que a Venezuela está realizando para si e para o mundo; ter por presidente alguém que faz o melhor investimento até hoje jamais feito com o dinheiro da energia suja do petróleo; ter por presidente alguém que está armando o povo de seu país (e dos países vizinhos) para enfrentar o invasor com todas as armas, e não somente as armas bélicas, mas, também, as armas da educação, da cultura e do saber, da igualdade social, da verdadeira democracia e da comunicação de massa (teleSur), esta última entre as mais eficazes nos tempos atuais - é o que, entre as inúmeras virtudes da República Bolivariana da Venezuela e de seu grande líder Presidente Hugo Rafael Chávez Frías, me faz confessar a inveja que nutro por todos os venezuelanos.

 

Que, com humildade, parabenizo.

 

Mas, "já nos estamos a conocer". 

 

 

-o-o-o-o-

 

 

Leio em Gilberto Vasconcelos (Nacionalismo Trabalhista Brasileiro, inédito) que Hegel identificou um conflito, naquela época em gestação, entre a América do Sul e a América do Norte. Para Hegel tal conflito seria duradouro e ele inclinou-se a crer que a América do Sul sairia, ao final, vitoriosa. Sendo contemporâneos, é provável que Hegel conhecera as idéias de Bolivar e isto pode ter influenciado o seu vaticínio, bastante arriscado já naqueles idos. Quando vejo na teleSur Hugo Chavez se referir a Evo Morales como a encarnação da profecia do aymara Tupac Katari, o qual, ao morrer esquartejado pelos espanhóis por causa de sua liderança libertária, disse que ia voltar, penso em Chavez também como a encarnação dos ideais de Bolivar - que retorna ao mundo para cumpri-los e consagrar mais uma vez a razão e a lucidez profética de dois grandes filósofos: o alemão Hegel e o brasileiro Oswald de Andrade.

 

 

Mario Drumond é jornalista e realizador audiovisual (escrito em Belo Horizonte, 16 de maio de 2006)

 

 

 


 

[1] Pelas informações a que tive acesso (na própria teleSur), apenas o governador Roberto Requião, do estado do Paraná, firmou convênio para repetir o sinal da teleSur em seu estado, incluindo um canal de áudio em português. Vi também, por acaso, alguns programas da teleSur, se bem que alterados, reeditados e muito prejudicados na qualidade, numa tal TV Brasil, que eu desconhecia. Informa-se nela que essa programação se restringe a horários, entre 1h e 7h, nos quais nem as grandes redes TVs conseguem sequer traço de audiência.

 

 

[2] Além do já citado documentário sobre Clemente de la Cerda, eis alguns programas que destaco entre os que tive o privilégio de assistir pela teleSur (quase três semanas, com cerca de duas horas de audiência por dia):

 

- Na série Caminantes, conheci a genial escritora e filósofa Rigoberta Menchú Tum, a índia maya-quiché nicaraguense que foi Prêmio Nobel da Paz, em 1992. O discurso dessa mulher é algo de extraordinário e nos conduz ao melhor pensamento revolucionário e humanista que tive o privilégio de conhecer. A produção (mexicana) do documentário é impecável, assim como a direção, a fotografia e, acima de tudo, a extrema sensibilidade na captação de um maravilhoso depoimento dado em entrevista que a edição montou, talvez na íntegra, pontuado de forma enxuta e severa por iconografias audiovisuais pertinentes, ao ponto de excluir totalmente a participação do entrevistador, tanto na imagem como no texto publicados.

 

- Da série Nahui - El Rostro del Ecuador, vi três belos filmes de documentário-ficção: Mulucu Auaca, Awa e Huaorani - Los hijos del Sol. Todos são produções equatorianas do final da década de 1990 e reproduzem as lendas e mitos da criação das respectivas tribos, narradas e protagonizadas pelos próprios indígenas em suas línguas originais (legendas em castelhano) e filmadas no habitat natural onde ainda vivem. Belíssimas sequências, dignas de um mestre como Kurosawa, explorando a plasticidade da floresta úmida equatoriana, os silêncios e sons da natureza e a beleza rústica dos indígenas, suas culturas e suas sábias crenças. Só vendo.

 

- No excelente Agenda del Sur, destaco, entre outros, um que foi dedicado ao uso das plantas medicinais pelas tradições indígenas sul-americanas e a atual exploração de seus conhecimentos por transnacionais ávidas de registrar patentes farmacêuticas. Esse programa é sempre informação jornalística de primeira. Um outro que vi foi dedicado à comida do povo latino-americano. É o primeiro que vejo sobre o assunto que não vem nos falar de bobagens nutricionais como vitaminas, fibras, carbohidratos, dietas burguesas da moda e ecologia de butique, e nos informa com segurança sobre as questões de produção, dos trangênicos, da biomassa vegetal e das tentativas de exploração imperialista das nossas riquezas agrícolas. Nesse programa, registrei a presença bem informada de Roosevelt Franquiz, engenheiro agrônomo e diretor do Instituto de Terras da Venezuela, que muito me pareceu um Marcello Guimarães venezuelano.

 

- Ainda em Agenda del Sur, se não me engano, pude me deliciar com um recital de música de câmara contemporânea com composições e execução do chileno Alejandro Lavaderos e um conjunto de sopros que executa, em instrumentos tradicionais de bambu e em flautas transversas, um tão inovador quanto genial repertório de música erudita que orgulharia a qualquer nacionalidade de qualquer parte do mundo.

 

Vi também chamadas para programas a serem levados sobre o poeta Mario Benedetti, a atriz Maria Rojo, o pintor mexicano Siqueiros, e outros sobre cineastas, escritores e artistas cujos nomes não me recordo agora, todos muito interessantes.

 

Entre as vinhetas, a minha predileta é a da bailarina, não só pelo tratamento plástico-visual mas, principalmente, pela beleza da sua dança e da música que a acompanha. E pelo final surpreendente, que não vou contar. Outras belas vinhetas são a do pianista Chuchito Sanoja, magistral, e a de uma trupe de atrizes-cantoras em performances de rua. É boa também (e arriscada, quanto ao áudio) a vinheta dos noticiários. Aliás, as vinhetas da teleSur são todas boas ou muito boas.

 

Excelentes, tanto quanto competentes, são também as criações de identidade visual da teleSur, desde o logotipo, suas animações, seus slogans, suas aplicações em tela, além das entradas e saídas dos programas da grade.

 

"TeleSur: Nuestro Norte es el Sur".

 

Breve Consideração Sobre a Corrupção

 

 Marcos Giusti

 

"Homo sum: humani nil a me alienum puto"

Terencio

 

 

A sentença de Terêncio que serve de epígrafe a este breve texto consegue retratar amplamente o meu espírito diante das últimas notícias de corrupção envolvendo partidos, congressistas e governo. "Sou homem e nada do que é humano me é estranho". Nenhuma perplexidade tomou-me subitamente de assalto ao ouvir e ler, em farto noticiário, que os paladinos da moralidade política do Brasil pertencem à mesma linhagem de homens que desde os tempos mais remotos da colonização dilapidam sofregamente o país.

 

Não me estarrece o fato de tudo acontecer de forma tão inescrupulosa, exatamente quando um partido que se dizia diferente dos demais por seu caráter ético, por seu comprometimento com as necessárias transformações sociais - que em dois anos e meio ficaram apenas na expectativa, ou nas recorrentes medidas assistencialistas -, tenha chegado ao poder. Ora, um partido não é um ente transcendental. Ele é formado por seus quadros, os quais, por sua vez, são compostos por homens. Estes em nada diferem dos que formam os quadros de outros partidos, a não ser, talvez, por um leve colorido ideológico - muitas vezes de ocasião e tantas outras vezes historicamente obsoleto - que visam apenas a um alvo: o poder.

 

Diz-se que o poder revela a verdade daquele que o assume, ou que o poder corrompe. Contudo, revelação da personalidade e corrupção não são propriedades do poder, mas qualidades inerentes àqueles que o exercem. Quem se revela e se corrompe é sempre o homem. Em sua ânsia desmedida de poder ele deseja ascender sempre, estar sempre comandando a situação, acumular sempre: cargos, riqueza, influência, prestígio..., tudo o que embriaga e cega quem contata o poder. Por que os que ora atingiram seus objetivos de mando político seriam diferentes? Em que outro planeta teriam nascido, para se vestirem com o imaculado manto da ética? Há uma enorme distância, um verdadeiro abismo, entre dizer-se ético e ser ético. Uma distância e um abismo que, neste país, parecem intransponíveis.

 

É uma bobagem acreditar que se possa medir o "quantum" de ética que cada homem traz em si. Também a ética não é uma propriedade de um indivíduo, mas a capacidade que um indivíduo tem de agir, segundo alguns princípios fundamentais, em determinadas circunstâncias. Não faz qualquer sentido bater no peito e dizer que ninguém tem mais moral do que eu. Esta é apenas uma frase retórica. Posso alardear aos quatro ventos o meu espírito ético e ter práticas que comprovem exatamente o contrário. Posso querer para mim o que não concedo aos outros. Eis o germe da corrupção nascendo do orgulho.

 

Como disse, só existe ética na ação. A omissão, portanto, também caracteriza a falta de ética. O que temos presenciado nos últimos dias é, da parte de alguns, a confissão da ação antiética e da parte de outros a completa inação que resulta no recrudescimento da sensação de que a ética é apenas uma palavra para discursos, sem nenhuma outra serventia.

 

Este é o nosso país. Estes são os homens que dirigem os rumos do nosso país. Que direção estamos tomando? O do completo descrédito das chamadas instituições democráticas, o que, por si só, já é um sintoma de decadência e de perigo. E não percamos de vista que há sempre oportunistas de plantão, esperando o momento certo para se arvorarem de messias da nova política nacional.

 

E se isso acontecer, não me estarrecerei. Sou homem e nada do que é humano me é estranho. 

 

Marcos Giusti é Professor de Filosofia

 

Receita afirma que não quebrou

 sigilo de 6 mil pessoas

 

Enviada por masoler@uol.com.br

 

06/04/2006 - Fonte: Consultor Jurídico 

A Receita Federal desmentiu, nesta quarta-feira (5/4), a informação divulgada pela imprensa de que cerca de 6 mil pessoas tiveram seu sigilo fiscal violado. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, a Corregedoria-Geral apura o acesso imotivado e violação de sigilo fiscal de apenas três contribuintes por parte de um servidor.

Em nota de esclarecimentos enviada para o blog do jornalista Josias de Souza,
a Receita explicou que a Corregedoria também apura o acesso imotivado aos dados sigilosos por outros dois servidores e esclarece a diferença entre violação de sigilo e acesso imotivado. O sigilo só é violado quando as informações são divulgadas para terceiros. Já o acesso imotivado pode ocorrer quando servidores acessam informações fiscais sem motivação de serviço.

A AMB — Associação dos Magistrados Brasileiros e a Ajufe — Associação dos Juízes Federais solicitaram à Receita que notifique os juízes que tiveram seu sigilo violado. A assessoria de imprensa da Receita informou que não tem conhecimento ainda desse pedido, já que grande parte da diretoria do órgão está em um evento em Florianópolis.

 

 

Lula fez o Ferreira lembrar Bakunin 

 

Enviei a amigos alguns comentários que se seguem.

Creio, desculpe-me a presunção, pertinentes ao momento.

 

É tenebroso o futuro que se avizinha. 

Gostaria de ser um ignorante total: não pensar, nada saber.

Receber o meu "Bolsa Família" e dar-me por satisfeito. Afinal a minha completude, minha necessidade básica, está resolvida.

Amanhã, vou ao restaurante de R$ 1,00, faço outro filho, que não vai freqüentar a escola, e, como os outros,  sem que me dê conta, dou continuidade à dinastia dos ignorantes.

- Saber, para que?

- Saber, o que?

- Para os que deixaram que se fossem os anéis para não perderem os dedos (isso já faz muito tempo: os absolutistas deram as jóias, constitucionalizaram-se) as coisas deviam continuar como estavam, o povo, a grande massa, transformaremos em eleitores e diremos que o poder dele emana:

"Querer é poder, mas aí está implícita a vontade de querer e esta deve continuar com curto horizonte.

- Educar o povo, não é boa política.

Permaneça iludido do voto livre, por isso, julgar-se-á livre, vivendo em uma democracia.

Inculto, sem conhecimento, sem discernimento, encabrestado: escolher seu líder, aquele que lhe der o mínimo. Não deve querer mais.

- O povo, se souber, vai querer mais. Saber é poder!

- Sabendo, não o manteremos manso, votando e pagando impostos. Estes, não podem faltar. Continuará meeiro. Nós, com a maior parte.  Poís como ficariam as nossas "miúdas" e mordômicas despesas?

- Saberá que e é dono do poder: - que o seu voto é o que nós dá o emprego.

- Deduzirá que somos seus empregados. Perderemos a empáfia que nos auto delegamos de autoridades (fazemos as leis).

- Saberá, na realidade, quem a tem. Exigirá que o respeitemos

Deixemos que ele exista: o mínimo que lhe dermos é para mantê-lo vivo, votante, agradecido a seus bem-feitores.

- Iluda-se que outros direitos tem além dos únicos que, verdadeiramente, são deveres:votar, para legitimar nossas falcatruas (as leis) e pagar impostos. Afinal como poderemos manter e dar  continuidade às nossas dinastias, que nababescamente existem em todas as Unidades da Federação, ao custeio público?"

 

Caso duvide, confira.

Desculpe-me ter sido longo,

Ferreira. 

"Diante de tanta imundice, patrocinada por um governo de um ex-operário, veio-me à lembrança um texto do anarquista russo Mikhail Bakunin, morto em 1876.

- Bakunin disse que, por qualquer ângulo que se olhe, chega-se ao mesmo resultado execrável:

O governo da imensa maioria das massas populares por uma minoria privilegiada.

Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."

ferreirarnsmk@terra.com.br

 

 

TUCANOS TAMBÉM INVENTARAM A CHANTAGEM COM A QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO

 DYDIMO BORGES, de Recife

Uma celeuma foi criada devido a quebra do sigilo bancário do caseiro  da chamada "mansão da República de Ribeirão Preto" que supostamente abrigava escritório de negócios escusos de ex-assessores do ministro Antonio Palocci.  Mas o expediente de quebrar sigilo bancário como forma de pressão ou de desmoralizar desafetos não é novo e foi usado pelos tucanos no primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso  para  pressionar deputados que se manifestaram contra a  reeleição.  Sabe-se que outros expedientes usados para a revogação do princípio constitucional que impedia a reeleição  foi a compra dos votos de deputados que se dispunham a manifestar sua opinião mediante propina. Deputados foram cassados devido este fato e outros tiveram de renunciar ao mandato.  Foi como  que uma "estréia" do que hoje é denominado "mensalão", uma invenção tucana  no governo de FHC.

 

O episódio ocorreu em 1996 quando foram quebrados os sigilos bancários de nove deputados do então PPB (Partido Progressista Brasileiro , hoje Partido Progressista, PP) que relutavam em "cair no conto" da reeleição de FHC.  Os deputados endividados com o Banco do Brasil  tiveram o sigilo bancário quebrado  como forma de chantagem do governo FHC  para mudar de opinião sobre a reeleição. Foi algo  muito mais grave que a simples quebra do sigilo de um  trabalhador humilde que  prestava serviços de caseiro numa mansão às margens do Lago Paranoá.  Mas como toda corrupção naquela época, a chantagem dos deputados pela quebra do sigilo bancário acabou "abafada"  e ninguém  foi punido.

 

Didymo Borges

 

PS: Para mais informações sobre a chantagem com quebra de sigilo bancário  acesse o portal O Informante http://www.informante.net/resources.php?catID=17&pergunta=809#809

 

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MEMÓRIA: Folha de São Paulo entre os dias 10/12/96 e 31/12/1996
Tucanos quebraram sigilo bancário de 9 deputados do PPB em 1996



Deputado confirma a lista de devedores do PPB junto ao BB (12/12/96)

O deputado Benedito Domingos (PPB-DF) confirmou ontem a existência de uma lista com nomes de parlamentares do PPB que estariam devendo ao Banco do Brasil. Domingos disse que chegou a ver a listagem no dia 27 de novembro, durante um almoço do partido, logo após a realização da Convenção Nacional do PPB em Brasília.

Nos bastidores, pepebistas afirmam que a lista teria circulado na convenção com o objetivo de intimidar o partido. O encontro havia sido convocado para decidir a posição da bancada sobre a reeleição. Segundo a Folha apurou, a intenção dos governistas era usá-la caso houvesse a possibilidade de o PPB obrigar seus congressistas a votarem contra a reeleição.


O partido de Paulo Maluf, porém, decidiu apenas recomendar o voto contrário à emenda que permite ao presidente Fernando Henrique Cardoso disputar um novo mandato. Não houve "fechamento de questão'' _obrigar os filiados a seguir uma orientação partidária_ como temia o governo.

A existência da lista foi revelada pelo colunista da Folha Elio Gaspari, no último domingo. Benedito Domingos confirmou que seu nome constava entre os parlamentares devedores do BB. Porém, não quis revelar outros integrantes da lista nem apontar quem lhe mostrou o documento. Segundo ele, a lista contém cerca de seis nomes com o valor do débito junto à instituição.

"Lamento que estejamos vivendo uma situação dessa no país, com nossos direitos violados. Acabaram com o SNI (Serviço Nacional de Informações), mas adotaram procedimentos piores'', disse. O deputado afirmou que vai pedir explicações ao banco pela quebra de sigilo de sua conta bancária. Na lista, Domingos aparece com a dívida de R$ 42 mil.

Segundo ele, o valor está errado porque já quitou uma cota de R$ 15 mil, referente ao débito de sua agência de turismo e posto de gasolina. "Sempre paguei os meus empréstimos em dia'', disse. A existência da lista provocou críticas do PPB. "Parece mais trabalho de araponga do SNI'', disse o deputado Jofran Frejat (DF), vice-líder do partido na Câmara.

"Isso tem cheiro de chantagem. Justamente no momento que deputados se colocam contra a proposta de reeleição'', disse Frejat. "Isso (a lista) se chama extorsão'', reagiu o líder do PPB no Senado, Epitácio Cafeteira (MA). O Banco do Brasil divulgou nota oficial afirmando que "não foi solicitado nem forneceu nenhum documento'' sobre movimentações bancárias de parlamentares.

"Conforme é praxe no mercado bancário, estudos internos são realizados rotineiramente para direcionar o relacionamento negocial do banco com sua clientela, especialmente quanto à capacidade de pagamento e riscos no deferimento e renegociação de operações de crédito'', diz a nota.

Segundo o texto, "os parâmetros que norteiam o relacionamento do Banco do Brasil e seus clientes caracterizam-se pelo respeito à ética e à preservação de todos os princípios assegurados pela lei do sigilo bancário''. Já o porta-voz da Presidência, Sergio Amaral, afirmou que não existe no Palácio do Planalto nenhum documento sobre o movimento bancário de parlamentares. 
 

 

 

 

Os Brasões e as armas

Vania Leal Cintra(*)

vaniacintra@uol.com.br

  I. No dia 27 de outubro último, dias após a divulgação do resultado do referendo popular sobre o comércio de armas, a primeira página do jornal “Hoje em dia”, de Belo Horizonte, estampava, tendo abaixo a legenda “Assalto acaba com vigia preso e ladrão solto”, a foto de um homem com os pulsos algemados. Era Edson Campos, vigia de uma empresa que, por cumprir sua função de vigia, havia dado um tiro para o alto rendendo um criminoso. Por isso, foi trancafiado numa cela da delegacia local. O frustrado ladrão, réu em 11 processos por furto e roubo, foi liberado.

Passei aquela semana em Minas, em um Encontro de intelectuais, ouvindo perplexa alguns deles, de incontestável renome, discorrendo horas a fio para uma platéia de acadêmicos sobre uma realidade virtual. Animadamente ela foi discutida, assim como a discutem também os políticos -- como se aquela virtualidade fosse uma realidade de fato e fosse, de fato, a brasileira. Tudo bem, sabemos que muito poucos conseguem perceber a nossa realidade e muitos menos conseguem equacioná-la. Na platéia cívica, cumprindo nossa função de cidadãos, alguns de nós, ao anteverem assaltos que são e serão cometidos, ainda se atrevem a dar tiros para o alto. E são imediatamente isolados e maniatados. Estes, sim, ninguém os vê nem os ouve. E o bate-papo sobre o faz-de-conta, por ser oficial mesmo quando parece oposição, prossegue sendo disseminado como se fosse esclarecimento.

E alguns me perguntam por que deixei de escrever. Respondo: que dizer, se temos à frente o mesmo quadro tantas vezes já comentado e nada se altera? É novidade Lula afirmar que levará Dirceu ao palanque? Ou que a empresa do Ministro da Defesa possa ter-se beneficiado com valores de um caixa 2? Ou que Dona Marisa e a família Palocci solicitaram e hoje desfrutam de uma cidadania estrangeira? Ou que a economia vegeta? Não. Escrever para quem, se todos perderam a capacidade de elaborar bons planos para o futuro e a vontade de pensar em como fazer deste nosso um País possível? Escrever para quê, se sabemos que a campanha eleitoral, que já começou, repetirá a mesmice de sempre, em que virtudes e defeitos pessoais serão expostos à exaustão, e a discussão dos reais problemas nacionais se verá ausente? Reforçar essa discussão mafiosa, desaforada, “napolitana”? Escrever e publicar por mero desabafo, para escandalizar os já escandalizados? Tolice. Abro os jornais e me pergunto onde está o Brasil em tudo aquilo que se estampa em páginas e páginas de exaltada indignação com tudo e com todos, muitas vezes em termos apropriados ao “bas-fond”, o que apenas faz que a população tenha cada vez mais ojeriza à política.

Lembro-me de que, em abril do ano passado, em espaço cedido pelo jornal carioca Tribuna da Imprensa, pude dizer de um Brasil que costuma se esquecer daqueles que lhe dão o suor e, muitas vezes, a saúde, senão a vida; em contrapartida, exalta os que apenas pensam em “se dar bem”, usam sua inteligência para arquitetar golpes e invadir a coisa pública, apossando-se dela, ou os que emprestam essa capacidade a outros países ou aos Organismos Internacionais, prestando serviços inestimáveis àqueles que apenas nos vêm como fonte de lucros. Estes últimos são condecorados e cultuados como heróis. Os primeiros são tratados como inimigos do povo.

A morte estúpida de um funcionário das Nações Unidas, em serviço, mas não a serviço do Brasil, havia dado ensejo a que postumamente recebesse a Medalha do Pacificador e a do Mérito Militar em grau de Grande Oficial no Dia da Bandeira; a morte estúpida de funcionários da base de Alcântara, em virtude da irresponsabilidade das autoridades e do abandono de projetos estratégicos nacionais, que resultaram na explosão do VLS, nenhuma homenagem havia merecido; a morte estúpida de Sérgio dos Santos Silva, em um atentado em Madri, teria como resultado que hoje ninguém mais se lembra de seu nome. Essas mortes motivaram aquele artigo, que tratava da forma estúpida como o nosso País exporta os cérebros, os braços e as expectativas de sua gente, que se vê sem emprego, sem segurança e sem perspectiva, e encara essa exportação como sadia fonte de divisas. E dela se vangloria como se fosse um mérito ou um trunfo.

Aquele artigo dizia de brasileiros mortos e também dos vivos. Tentava falar de uma paz social que todos nós-conscientes ambicionamos, mas que estamos fadados a não alcançar pela inépcia de nossa política e pela confusão que se faz entre o que nos concerne e o que não nos diz respeito; e apontava alguns indivíduos que poderiam ou deveriam ser considerados verdadeiros criminosos em virtude de suas posturas e ações, virulentamente destrutivas.

Nada foi colocado como sendo específico do Governo Lula ou decorrente de qualquer filosofia barata disseminada em quadrinhos. Propositadamente e mesmo porque nossa situação nacional atual deplorável é fruto de um processo de décadas e décadas de má política acumulada e de maus políticos. E de uma péssima Escola pública. E de uma visão torta do que venha a ser um cidadão.

 

II. Nos últimos tempos, o Governo brasileiro e o partido pelo qual se elegeu fizeram, no entanto, muitas coisas e muito contribuíram para que o processo de afastar a sociedade brasileira da Política se aperfeiçoasse. Foram verdadeiramente “pró-ativos”. Gatas Borralheiras, sonharam com ser Cinderelas por encanto, acreditando que lhes (não “nos”) seria dado um assento no Conselho de Segurança -- mesmo que o México e nosso “irmão” do Mercosul desmentissem a tal da liderança que, tolamente, nosso Governo afirmava exercer na América Latina, mesmo que nenhuma das potências detentoras do poder de veto demonstrasse qualquer intenção verdadeira de permitir que seu poder fosse podado. Definiram uma política externa irresponsável, tal como o fizeram Governos anteriores, como quem aposta no “bicho”, jogando tudo “na cabeça”; e perderam, porque nem mesmo uma zebra foi o resultado, que era previsível.

De lá pra cá, este nosso governo e o partido pelo qual se elegeu torceram muito, distorceram mais, fizeram muitos discursos, criaram metáforas novas, anunciaram providências que mais aperfeiçoavam a política econômica de seus antecessores, cuidaram de manter o arrocho, os juros astronômicos e a sangria fiscal sobre a classe média; mas proporcionaram muitos negócios aos “amigos” e beneficiaram “apoiadores”; também a exemplo do governo e do partido que sucederam no poder, passearam bastante, blefaram mais e creditaram seus fracassos na conta dos que “torcem contra”; incentivaram a fragmentação étnica, condenaram 500 anos de história porque seriam, exatamente como Governos e partidos que os antecederam, “o novo”; e deram festas caipiras, comeram batatas doces, soltaram balões; compraram sucata para a Força Aérea, entregaram 90% da base militar de Alcântara à iniciativa privada, reduziram as FFAA a uma instituição de assistência social, transformaram Dia do Marinheiro em dia do Forró e o Dia da Bandeira em dia da Dengue; deram mais terras nossas para os índios, desdenharam de uma situação de guerra civil no campo e nas reservas, compraram mais computadores para que a população semi-analfabeta pudesse estar “plugada” no mundo globalizado; deixaram rolar uma campanha de desarmamento cívico que interessava a unicamente uma empresa austríaca de segurança particular e aos que nos desejam inermes e apáticos; ensaiaram um sistema de censura mais específica e radical que a praticada durante os anos que a esquerda e os liberais denominam “de chumbo”, através de propostas de criação de Conselhos Profissionais e de controles cibernéticos, enquanto os celulares correm soltos nas cadeias públicas e os provedores internacionais são inacessíveis. De louvável, nada. De bom e sadio para o desenvolvimento nacional, menos ainda.

O presidente Lula, em meio a tudo isso, retirou levianamente do arquivo-morto, tal como um outro já fizera, um plano de obras faraônico cuja execução, a pretexto de irrigar o Nordeste, é mais que criticada por especialistas como contraproducente; alegou que está em crise (existencial?); parodiou Caminha ao explicar ao presidente norte-americano que temos terra, sol, água, gente boa para trabalhar, não temos furacões, nem neve, nem maremotos, nem terremotos e que investindo neste nosso País, que é todo paz e amor, é possível sempre levar alguma vantagem; manteve a consorte a tiracolo desfrutando do protocolo em todas as cerimônias oficiais, fritou ministros, queixou-se de traições, fez que não vê e que não ouve -- e os brasileiros continuaram morrendo. De fome, de febres, nas filas, nos acidentes, explodidos, afogados, alvejados. Morrendo de descaso.

Assim perdeu a vida Jean Charles de Menezes, executado em Londres, e, quando isso aconteceu, quisemos ensinar a Polícia inglesa a cuidar da segurança de seu país e a de seus cidadãos. Assim perdeu a vida Magna de Souza Lemos, e o Governo brasileiro demonstrou-se então preocupado com mais de 46 mil brasileiros que ingressaram ilegalmente nos EUA e foram capturados por agentes da Polícia de fronteiras. Justificou, assim, a criação de um escritório consular na fronteira entre esse país e o México, pois a imigração “chegou para ficar” uma vez que, conforme esclarece nosso Cônsul em Houston, “desde a época do império romano que as pessoas querem ir para o lugar onde têm mais oportunidades. E a Roma de hoje é os Estados Unidos, com imensa geração de renda e empregos”. Deve ser normal...

Assim, continuamos exportando gente nossa, capaz e esforçada, e continuaremos a exportá-la com mais garantias, para que os magros salários obtidos com empregos desqualificados engordem nossas reservas em divisas, enquanto continuamos importando um leque cada vez mais amplo de mercadorias, que vai desde badulaques natalinos e cosméticos a produtos eletro-eletrônicos, passando por tecidos e máquinas e equipamentos.

Assim todos nós continuaremos a morrer de vergonha e de medo de sair às ruas, enquanto os malfeitores, os de salão e os marginais, continuam soltos e impunes. Alguns deles, transformados em exemplo de cidadania, seja por ONGs inconseqüentes dedicadas a garantir direitos humanos aos que não respeitam os direitos humanos, seja por uma esquerda rançosa e mofada que vê no crime uma resistência “legítima” à burguesia. E ainda há quem considere que não devamos fazer julgamentos políticos...

 

III. Nós, brasileiros, continuaremos a dar as costas a essa terra um dia bendita por todos, exceto por nós mesmos. Arriscamos tudo nesse êxodo, ainda que ele seja apenas emocional, porque nela parece não nos ser mais permitido sobreviver com decência e porque nela ninguém nos ensina mais a pensar, ou a querê-la bem e a nos orgulhar de a ela e à nossa gente servir. Arriscamos tudo também, cotidianamente, ao subir nos ônibus indo para a Escola, para o trabalho, a passeio no domingo, o que deveria revoltar qualquer espírito nacional por menos bem intencionado que fosse. O terror se dissemina sobre nossas cabeças, sob nossos pés. E nada disso altera o ânimo dos que estão visceralmente comprometidos com suas próprias barbas ou com suas próprias batatas ou com objetivos que nos são impostos a partir da visão de mundo concebida fora de nosso território, pelos senhores do mundo, para os quais devemos ser o mesmo que é qualquer espaço geográfico de periferia, por todos os séculos dos séculos.  

Os pequenos políticos tradicionais de nossa tradicional política pequena preocupam-se, por sua vez, apenas com o arremedo capenga de democracia que se amolda a uma espécie de bipartidarismo heterodoxo, que nos é imposto pelo vazio de opções, enquanto o Presidente Lula nos pede desculpas, de cara lavada, caso alguém se sinta ofendido com a mediocridade da classe política.

Muitos são os que se sentem ofendidos, sim, e de forma alguma desculpam o Presidente. Não por atribuir-lhe a crise de valores, essa sim, uma crise real, que hoje atravessamos de forma tão avassaladora que, com as eleições batendo à nossa porta, não se nos apresenta a possibilidade de uma única administração alternativa sequer. Essa crise, a de valores, que já é estrutural, foi herdada de Governos anteriores, construída gota a gota, alinhavada ponto a ponto, embora tenha sido requintadamente aperfeiçoada neste Governo. Tampouco é por sua ignorância ou por seus erros que o Presidente Lula não merece desculpas, mas por sua absoluta e voluntária alienação das funções para as quais foi eleito e por sua extraordinária desfaçatez em pretender que o engulamos e a todos os seus por mais quatro anos -- embora por vezes dê a nítida impressão de que reconhece que, da semente que cuspiu, brotou fruto tão amargo que ele próprio vacila em decidir chupá-lo num eventual próximo mandato.

Pouco menos de um ano nos falta para que entremos, solenemente, em uma sessão de uma zona eleitoral qualquer para exercer nosso direito de escolha, numa eleição formalmente democrática que deverá apontar o novo Presidente desta nossa República, por acidente e infelicidade, Federativa. No entanto, a falta de respeito pela coisa pública e a falta de debate público a respeito da coisa pública traduzem o fato de que não há oposição organizada no Brasil. O que nos diz que não há alternativa. Aliás, não há Brasil na política brasileira. Reconhecer uma oposição demandaria reconhecer uma proposta alternativa de poder, um projeto alternativo de Nação, uma perspectiva alternativa para o País. O debate que se vê faz-se apenas em torno de méritos e deméritos pessoais, da ética e da hermenêutica, como se estivéssemos a definir a coroação de um Rei pela graça de Deus (ou a canonização do beato de nossa devoção).

O cenário atual nos diz, portanto, que nossa escolha definirá o resultado de uma disputa dinástica, recheada de fuxicos entre padres e bispos de diferentes igrejas e os nobres dos diferentes feudos estaduais; uma disputa entre famílias da mesma estirpe, com a mesma mentalidade cosmopolita, no que de mais provinciano o cosmopolitismo possa manifestar em sua versão de periferia, e com os mesmos vícios e enfermidades atávicas que lhes afinam o sangue. Entre todos os brasões que se apresentam até agora, mesmo os que correm por fora, não há um único verde e amarelo e as cores que ostentam não merecem de nós qualquer atenção ou expectativa. Essa é uma disputa que poderá emocionar os aficionados à heráldica. Não os que observam o Estado e a Política e neles insistem em crer.

E daí? Em que ficamos?

Nós, eleitores, estamos todos como em uma plataforma de embarque. Não como condenados, mas como cidadãos livres -- nem estamos algemados, nem sob a mira dos fuzis, nem temos correntes nos pés. Nosso voto, sim, é uma arma, mas poderá ser apontada não apenas a nosso favor, em nossa defesa, como contra nós. À nossa espera, há vagões que mantêm as portas abertas para que ocupemos lugares predeterminados pelo condutor e pela história que nos tem sido imposta. O destino deles todos é um só, é prosseguirmos em círculos numa espiral descendente, é o nada.

Talvez seja hora de lembrar a todos os que vêem nosso País do melhor prisma que votar é um ato de vontade, não de submissão ou resignação. Ninguém nos obriga a errar, e a prosseguir sendo coniventes com tantos erros; muito menos a escolher a menos ruim entre as péssimas possibilidades que nos são hoje oferecidas. A aceitá-las indefinidamente, em permanente exercício de voto “útil”, apenas chegaremos onde estamos. Onde não há e nunca houve Brasil. Ou, com certeza, um pouco mais abaixo.

Não embarcar é, pois, uma opção a considerar com seriedade. Até que desponte no horizonte nacional uma proposta diferente da perpetuação dessa pendenga histórica estéril e muitas vezes histérica, que só nos faz mal, entre malandros “de esquerda” contra malandros “de direita” incentivada por malandros outros, “de centro”, que nela vão de carona. Até que tenhamos uma alternativa de fato a exaltar. Para o que se faz necessário que, desde já, com olhos postos no horizonte e conscientes de que o resultado de 2006 pouco dependerá disso, decididamente nos organizemos.

(*) Vania Leal Cintra é socióloga