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NOSSA VARIG, NOSSO AERUS |
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A AUDIÊNCIA DA VIRADATexto BIANCA CARILLO - Fotos SORAYA BRIZOLA |
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O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, acredita que existe como resolver os problemas criados com as demissões dos ex-funcionários da Varig e a suspensão dos pagamentos aos pensionistas do fundo de pensão Aerus. "Eu já tenho a solução na minha cabeça. Vou conversar com os colegas do Governo e só quando tiver a resposta eu revelarei à imprensa. Se eu falar agora pode atrapalhar as negociações", garantiu o ministro, durante debate público promovido pelo vereador Pedro Porfírio (PDT) na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, na última sexta-feira, dia 4 de maio.
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Lupi vê caminho aberto para o pessoal da Varig
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O ministro Carlos Lupi recebeu o vereador Pedro Porfírio com os dirigentes das associações de trabalhadores da Varig Marcelo Duarte, Elnio Borges e Carlos Gouveia. Uma reunião proveitosa como desdobramento da audiência pública na Câmara do Rio.
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O governo está realmente empenhado em encontrar uma solução rápida para o pessoal da Varig e para os participantes do Fundo Aerus. “Essa solução pode sair mais rápida do que muitos esperam, pois o caminho nesse sentido já está aberto”. Foi o que disse nesta segunda-feira o ministro Carlos Lupi, que recebeu o vereador Pedro Porfírio e os dirigentes das associações de funcionários da Varig, em audiência na Delegacia do Ministério do Trabalho do Rio de Janeiro. Ele considerou também “engenhosas” as idéias apresentadas pelos empregados para os dois casos e determinou à sua Assessoria Jurídica um rápido encaminhamento de uma proposta baseada nos entendimentos de ontem. O encontro foi o desdobramento da audiência pública que realizamos no último dia 4 na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e se destinava a aprofundar a busca de alternativas para dois problemas de emergência: 1. a situação dos participantes do fundo de Pensão Aerus, cujos aposentados poderão ficar sem pagamentos já no próximo mês, e 2. as dificuldades dos empregados do Grupo Varig, que foram demitidos no ano passado e até hoje não receberam nem os salários atrasados. Saídas de emergência O ministro Carlos Lupi foi objetivo ao informar de suas gestões no interior do governo para encontrar alternativas de emergência para a situação dos aposentados do fundo de pensão Aerus, que poderão ficar sem receber seus benefícios já a partir de junho.
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Para ele, na medida em que sejam encontradas soluções jurídicas no caso da dívida do governo com a Varig, a prioridade será o respeito a compromissos firmados, que incluíram a quitação da dívida da empresa com o fundo de pensão, de forma a assegurar os direitos dos seus participantes.
Em nome dos empregados da Varig, o comandante Élnio Borges, presidente da Associação dos Pilotos, mostrou que há saídas para uma solução negociada, através de uma fórmula criativa, que poderia ser suportada com tranqüilidade pelo Tesouro. O ministro Carlos Lupi considerou engenhosa a idéia sugerida, manifestando sua confiança de que ela possa ser absorvida inclusive pela área econômica do governo. Ele disse que tem tido o apoio de vários ministros e do próprio presidente Lula nas iniciativas para o resgate do mercado de trabalho dos trabalhadores na aviação, incluindo uma melhor utilização do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Lupi achou plausível também a proposta sobre o aproveitamento pela Gol do pessoal da Varig sem as perdas dos direitos, mas dentro de um entendimento que consideraria também o momento da empresa que vai operar a chamada Nova Varig. Pedro Porfírio saiu muito otimista da reunião: “Da minha parte, tive a sensação de que o ministro Carlos Lupi está respondendo as expectativas criadas desde a sua fala na audiência do dia 4”.
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Veja agora a novela que afeta toda a aviação comercial brasileira
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O que você precisa saber para entender o complô contra a Varig, o Aerus e seus funcionários e aposentados.
Fundada em 7 de maio de 1927 pelo piloto da
força aérea alemã Otto Ernst Meyer, a Varig não tem razão para
festejar seus 80 anos, nessa que seria a maior proeza de uma
companhia aérea brasileira: acenderá suas velinhas em meio à
angústia do seu pessoal, o pavor dos seus aposentados e
pensionistas e a expectativa pessimista do povo brasileiro, em
particular dos 6 milhões de integrantes do seu programa de
milhagem. |
![]() Este material que você vai ler é fruto de uma pesquisa que realizei. Pretende ser apenas o ponto de partida para a produção de um verdadeiro dossiê, que aprofunde toda essa rumorosa novela. PEDRO PORFÍRIO |
Rasgando a legislação trabalhista
A convicção de que a nova Lei 11.101/05 não pode livrar uma empresa de suas obrigações trabalhistas foi endossada também pelos juizes, inclusive com o bloqueio de contas da Varig. Essa posição foi reafirmada recentemente em nota conjunta pela Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho e pela Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, a propósito de uma decisão da 2ª Seção do STJ, também do dia 25 de abril, que foi interpretada como se transferindo para a Vara Empresarial as pendências trabalhistas.
No documento, as
duas entidades afirmam:
1. A competência para o julgamento das ações dos trabalhadores em
empresas adquirentes de ativos de outras em recuperação judicial que
continuam sua atividade econômica é nitidamente da Justiça do Trabalho.
2. A decisão no Conflito de Competência acima, ao declarar competente a
Vara Empresarial para julgamento de questões trabalhistas, como a
sucessão de empregadores, em face das empresas em recuperação judicial,
além de ter ultrapassado os limites do Conflito de Competência julgado,
que não tinha em suas questões o ponto da sucessão trabalhista, deslocou
em favor da Justiça Comum, sem qualquer justificativa legal data venia,
competência da Justiça do Trabalho, já que a lei impõe que o julgamento
das ações trabalhistas em toda a fase de conhecimento, sendo da
competência do Juízo Universal da recuperação judicial, como ocorre na
falência, os atos de alienação ou constrição de bens da empresa
recuperanda (art. 6°, § 2°, Lei n° 11.101/2005) até 6 (seis) meses do
início da recuperação, prazo este já esgotado há muito tempo (§ 6° do
mesmo artigo);
3. A competência para a declaração de existência ou não de sucessão
trabalhista, nesses casos, não se alterou com a Lei nº 11.101/2005,
continuando a ser da Justiça do Trabalho, por ser matéria eminentemente
trabalhista prevista nos arts. 10 e 448 da Consolidação das Leis do
Trabalho, não revogados pela nova lei de falências.
4. As entidades subscritoras concitam o Ministério Público a recorrer ao
Supremo Tribunal Federal, pois a decisão ofende o texto da Constituição
Federal, retirando competência firmada expressamente pelo art 114 da
Constituição Federal, além de ter olvidado o Superior Tribunal de
Justiça todas as normas de competência expressas na nova Lei de
Falências;
5. Esclarecem ainda que a questão da existência ou não da sucessão de
empregadores não foi tratada no Superior Tribunal de Justiça no
julgamento acima, pois não cabível nesse incidente processual;
6. Expressam, por fim, a ANAMATRA e a ANPT a confiança de que o
SupremoTribunal Federal irá rever a decisão do Superior Tribunal de
Justiça e confirmar a competência da Justiça do Trabalho para as
questões trabalhistas referentes tanto à empresa em recuperação judicial
quanto às adquirentes de ativo que importem em continuação da atividade
econômica.
Já o Rego Brandão, cuja função era zelar pela cobrança da dívida de
cerca de R$ 2 bilhões da Varig para com o Fisco, considerou que a
operação não podia ser feita. Para ele, a lei permite a separação em
caso de unidades que não sejam essenciais para a capacidade do grupo de
honrar seus compromissos. Assim, uma rede de fábricas de refrigerantes
poderia vender algumas delas, livres de dívidas, mas manter as restantes
e saldar seus compromissos.
“Em tese, enquanto a lei não for alterada, o passivo se transfere para a
outra empresa” - insistiu numa entrevista em abril de 2006 - “Caso
contrário, é um atentado ao crédito público.” Com essas idéias, Rego
Brandão perdeu o cargo que exercia desde março de 2003, e foi
substituído por Luís Inácio Adams, que pensa justamente o contrário.
Aerus - do sonho ao pesadelo
Assim como
os empregados demitidos ficaram a ver navios e os mantidos sujeitaram-se
a regras dos gestores da “Nova Varig”, igualmente dramática ficou a
situação dos aposentados e pensionistas, participantes do Fundo de
Pensão Aerus.
Nesse caso, a respon- sabilidade do governo federal, através da
Secretaria de Previdência Complementar, é mais do que evidente. Desde
1990, quando o Aerus tinha apenas oito anos de existência e parecia ser
o mais bem calculado fundo de pensão complementar, a ação demolidora do
governo e das patrocinadoras parecia prenunciar o caos que hoje se
configura como praticamente irreversível.
Daí a decisão da desembargadora federal Neuza Alves da Silva, da 1ª
Região do TRF, que concedeu antecipação dos efeitos da tutela
jurisdicional, determinando que a União destinasse os valores
necessários à manutenção mensal do benefício para cada assistido, com
base em ação do advogado Castagna Maia.
Todas os acontecimentos que levaram a insolvência de hoje ocorreram com
a chancela do governo, numa seqüência de ilegalidades, rupturas de
contrato e atos abusivos que envolvem vários governos, desde Fernando
Collor.
O resultado é que os mais de 8 mil participantes do Aerus já não recebem
praticamente nada do que têm direito. A situação é tão grave que as
migalhas ainda repassadas são desviadas de contribuições dos que ainda
estavam na ativa até o leilão de 2006. Do que foi pago pelos atuais
aposentados e pensionistas não sobrou mais nada.
Hoje, só há uma esperança: se o governo parar de protelar o processo de
15 sobre sua dívida com a Varig, parte desse dinheiro – R$ 3,1 bilhões –
destina-se imediatamente para cobrir a dívida da empresa com o fundo de
pensão, cabendo a este fazer a imediata repartição dos valores, a menos
que a patrocinadora se reerga e restabeleça a normalidade na
contribuição.
O Aerus nasceu da necessidade de resgatar os valores concedidas ao tempo
do IAPFESP (antes da unificação da Previdência Pública), quando uma taxa
de 2% sobre as receitas das tarifas aéreas assegurava aos trabalhadores
da aviação aposentadorias próximas dos seus ganhos na ativa.
Na década de 70, os aeronautas tomaram iniciativas nesse sentido, até
que em janeiro de 1976, a antiga Associação de Pilotos da Cruzeiro – APC,
se reuniu em sua sede com representantes do Sindicato Nacional dos
Aeronautas, da Associação de Pilotos da Transbrasil – APT, Associação de
Tripulantes da VASP – ATV, e Associação de Pilotos da Varig – APVAR,
visando à formação de um Grupo de Trabalho para preparar um ante-projeto
de complementação de aposenta- doria dos aeronautas, os mais afetados
com o fim do IAPFESP.
Parecia claro que a vertiginosa queda do poder aquisitivo dos pilotos,
quando iam para a inatividade (em vários casos, aeronautas passavam a
receber proventos de aposentadoria equivalentes a 20% do que recebiam
quando no execício da profissão) era motivo de precupação para todos.
Isso gerava n aeronauta, além da insegurança uanto ao seu futuro, uma
absoluta falta de incentivo para que ele se aposentasse, o que
comprometia a necessária renovação dos quadros dos tripulantes.
Propunha-se a criação de um Fundo de Complementação de Benefícios que
abrangeria todos os trabalhadores da aviação em geral. À época, vigia o
Decreto nº 77.077, de 24.01.76, que tinha previsão expressa quanto a
essa possibilidade. Seu artigo 105 franqueava ao INPS a realização de
seguro coletivo para ampliar os benefícios previstos.
Esse fundo, nos termos em que foi concebido e proposto, seria custeado:
(a) por uma verba a ser arrecadada dos usuários do transporte aéreo, tal
qual a taxa do “seguro especial do aeronauta” que por tanto tempo
vigorara; (b) por uma contribuição dos próprios empregados, a ser
deduzida do salário, e (c) por uma outra parcela, a ser suportada pelas
empresas aéreas, usando da faculdade prevista na Portaria nº 41/74 do
Ministério da Fazenda, que instituía benefício fiscal para esse tipo de
aporte (considerava como despesa operacional os gastos com serviços
assistências destinados a todos os empregados, inclusive com a
complementação de aposenta- dorias).
Em julho de 1982, finalmente, as empresas aéreas e demais integrantes do
Sistema de Aviação Civil firmaram declaração de Intenção,
manifestando-se no sentido de constituir entidade de previdência
complementar fechada, sem fins lucrativos.
Firmaram esse compro- misso a ARSA - Aeroporto do Rio de Janeiro, Celma
– Companhia Eletromecânica, Cruzeiro do Sul S/A Serviços Aéreos, Embraer
– Empresa Brasileira de Aeronáutica, Infraero – Empresa Brasileira de
Infra-estrutura Aeroportuária, Líder Táxi Aéreo S/A, Nordeste Linhas
Aéreas Regionais S/A, Rio-Sul Serviços Aéreos Regionais S. A, SATA –
Serviços Auxiliares de transporte Aéreo, TABA – Transportes Aéreos da
Bacia Amazônica S/A, TAM – Transportes Aéreos Regionais S. A., TASA –
Telecomunicações Aeronáuticas S. A., Transbrasil S/A – Linhas Aéreas,
Varig S. A. Viação Aérea Rio-Grandense, VASP Viação Aérea São Paulo S.
A. e VOTEC – Serviços Aéreos Regionais S/A.
Em setembro de 1982, com base em cálculos atuariais que tiveram a
assessoria da STEA – Serviço Técnico de Estatísticas e Atuaria,
contratada diretamente pelo DAC, foram definidas as fontes de
sustentação do Fundo Aerus: participantes, empresas de aviação e um
percentual de 3% sobre as passagens cobradas. Esta última fonte deveria
ter duração até 2012.
Essa taxa sobre as tarifas ganhou sustentação jurídica com a assinatura
de um “Aditivo ao Termo de Compromisso de concessão de serviço público”,
firmado entre o DAC e as concessionárias do transporte regular de
passageiros (Varig, Cruzeiro, Transbrasil e Vasp) em 1º de setembro de
1982.
Com a aprovação dos Ministérios da Aeronáutica e da Previdência e
Assistência Social, surgiu assim o Instituto Aerus de Seguridade Social,
sendo o seu Estatuto registrado sob o nº 70.476, no Livro nº A-23 do
Registro Civil de Pessoas Jurídicas do Rio de Janeiro, em 06 de outubro
de 1982.
A autorização de funcionamento veio em seguida, pela Portaria nº 3.083
de 20/10/82, do Ministério da Previdência e Assistência Social,
publicada no Diário Oficial da União em 22 de outubro de 1982.
O Aerus já nasceu sob a égide da Lei nº 6.435/77, que regulamentava os
fundos de pensão privados. Essa Lei estabelecia em seu art. 3º que o
Poder Público tinha obrigação de “proteger os interesses dos
participantes e determinar padrões mínimos adequados de segurança
econômico-financeira, para preservação da liquidez e da solvência dos
planos de benefícios, isoladamente, e da entidade de previdência
privada, em seu conjunto”.
Um relato do advogado Luis Antônio Castagna Maia, defensor dos
participantes do fundo e responsável pela vitória junto à desembargadora
Neuza Alves Silva, demonstra todo o processo de desestabilização do
Aerus a partir de 1990, quando o governo Collor bancava a
“desregulamentação” da econo- mia brasileira.
A VASP - patrocinadora de instituto, de nome assemelhado - Aeros - Fundo
de Previdência Complementar - tão logo “privatizada” solicitou não mais
repassar a chamada 3ª fonte de financiamento. O DAC recusou, em 1990,
alegando que se tratava de condição da concessão, ou seja, cláusula de
cumprimento obrigatório, rechaçando a pretensão da Vasp. Alegou, ainda,
que não era a Vasp quem pagava - tão somente repassava ao consumidor o
valor relativo à 3ª fonte.
Tudo por culpa da omissão e conivência dos governos
Curiosamente,
por ordem superior, sete meses após, o DAC mudou de opinião e, além da
Vasp, baixou ato administrativo, dispensando todas as compan- hias
aéreas do repasse dos 3%.
“Aí há dois problemas - nunca competiu ao DAC opinar sobre custeio de
fundos de pensão; de outra parte, quem deveria fiscalizar, ou seja, a
Secretaria de Previdência Complementar, silenciou completamente sobre o
assunto. Assim, o Aerus teve simplesmente extinta uma das 3 fontes de
financiamento” apesar do aditivo de concessão assinado em 1982.
Em 1995, foi criado o segundo plano de benefícios do Aerus, o chamado
Plano II, construído sob a modalidade de contribuição definida, e
praticamente imposto ao universo de participantes. A moda dos chamados
planos de CD chegou aqui pelas mãos das multinacionais de atuária. “O
problema não foi a implantação de um plano de CD: foi sua criação a
partir de recursos do plano antigo (de benefício definido), sem que o
plano antigo assim autorizasse. Ainda mais grave: novamente foi quebrada
a regra de custeio do Aerus. A regra original previa um percentual da
folha de pagamento a ser paga pela patrocinadora”.
Com a criação do Plano II, as companhias aéreas passaram a adotar outro
conceito: não mais a folha total de pagamento, mas a chamada folha de
participantes. Ocorre que o plano havia sido formulado com o cálculo do
seu custeio a partir da folha total de pagamento, e não da chamada folha
de participantes. O procedimento - a quebra da regra de custeio - foi
aprovado pela Secretaria de Previdência Complementar, assim como a
criação de um plano a partir de recursos de outro.
Em 1998, a SPC autorizou a saída da TAM, que também era patrocinadora do
instituto, violando o Regulamento do Aerus, que garantia o aporte em
caso de retirada de patrocínio. Mesmo assim, a SPC autorizou a saída da
TAM, retirando recursos do Plano.
Em 29.12.2002 - 3 dias antes do término do governo FHC - houve outra
aprovação absolutamente imoral pela SPC: a aprovação da pulverização dos
planos de benefícios. Até então, havia o Plano I e o Plano II. A partir
daí passaram a existir os Planos Varig I e II, Rio Sul I e II, Nordeste
I e II, e por aí afora. Foram, gerados 19 planos de benefícios.
O mais extraordinário, o mais inacreditável: foi modificado o
regulamento. Em cada um desses planos, a patrocinadora passou a
contribuir com quanto quisesse, quando quisesse e SE quisesse. E, por
coin- cidência, nunca mais quis contribuir.
Havia um contrato entre participantes, fundo de pensão e patrocinadora.
A SPC simples- mente autorizou que uma das partes não mais o honrasse,
que passasse a contribuir de forma diferente. Isso ocorreu em todos os
planos do Grupo Varig.
Em determinado momen- to, a Varig não conseguiu honrar sua contribuição
e pediu que fosse financiada por 12 meses. Não honrou, mais doze meses.
Não honrou novamente, mais 36 meses, mais 10 anos, mais 20 anos. No
total houve VINTE E UMA renegociações de dívidas entre Aerus e Varig, e
OITO renegociações de dívidas entre Aerus e Transbrasil.
Ou seja, a lei exige regime de capitalização. A SPC, no entanto, aprovou
um regime que chamo de “contratação”, e não capitalização. Ao invés de
aportar recursos, aportava contratos. E tais contratos nunca foram
honrados”.
Nessa onda, chegou repassar para o Aerus, a título de cobertura, 5% das
ações da Varilog a preços superfaturados.
Diante desses fatos, a desembargadora Neuza Alves da Silva
responsabilizou o governo, determinando que cobrisse o rombo pelo qual
era responsável. A ministra Ellen Grace, presidente do STF, deferiu tão
somente a suspensão da multa, mas não revogou a decisão que
responsabiliza a União.
A decisão a que responsabiliza a União por danos praticados permanece
válida, mas a multa diária que compelia a União a pagar foi afastada
provisoriamente. Contra essa decisão foi interposto Agravo Regimental a
ser julgado pelo pleno do STF.
“O que houve, então, no Aerus? Houve fraude à capitalização, e essa
fraude foi perpetrada pelas próprias autoridades públicas. Não houve
apenas omissão: a União agiu, autorizou, aprovou, chegando ao cúmulo de
criar a figura de patrocinadoras que nada patrocinam, ou seja, que não
estão obrigadas a contribuir para o fundo. E os contratos firmados?
Foram completamente ignorados pela União” –disse o advogado,
acrescentando:
“O Aerus foi vítima de banditismo oficial, de autorizações absolutamente
ilegais, de quebras unilaterais de contrato autorizadas pela União”. Um
golpe para evitar a recuperação”.
Viu-se que o desmonte do Aerus se deu por indução do governo federal a
partir de 1990. Mas o pior viria acontecer em 12 de abril de 2006,
quando a Secretaria de Previdência Complementar do MPAS iniciou a sua
liquidação.
Quando o fundo começou a ser liquidado, as reservas estavam
contabilizadas em R$ 756,960 milhões, segundo informações prestadas pelo
interventor Emo Dionizio Brentano. Mas este total não era o valor
efetivo do dinheiro disponível para o pagamento das aposentadorias. Por
ter uma parte considerável das reservas aplicadas em imóveis e outros
investimentos, somente R$ 326,968 milhões estavam efetivamente
disponíveis para cobrir os benefícios.
Esse valor foi rateado entre os 8 mil participantes do Aerus e o
resultado foi assustador: o dinheiro só dava para pagar os aposentados
somente por um ano e ainda assim com cortes que variam de 80% a 55% do
benefício previsto inicialmente. Essa margem de pagamento terminaria no
dia 12 de abril de 2007. Negociações feitas no início do ano, depois que
o Aerus procedeu novo corte por conta do pagamento de uma dívida com a
Receita em face de erros no PIS, garantiram mais alguns meses de
sobrevida.
Quando da decisão do Ministério da Previdência de proceder à liquidação
do fundo, as associações de profissionais da empresa, através do TGV –
Trabalhadores do Grupo Varig – denunciaram que “a medida foi arquitetada
pelo Governo Federal para impedir que os trabalhadores interessados
investissem pequena parte de sua poupança previdenciária na recuperação
da Varig. A publicação da portaria, no Diário Oficial da União, ocorreu
um dia após a marcha pela salvação da Varig, em Brasília.
Na ocasião, repre-sentantes dos trabalhadores mostraram ao governo que
havia uma alternativa de investimento na Varig: a conversão de parte da
poupança dos funcionários ativos em ações da empresa, para mantê-la
operando e, dessa forma, garantir que também os aposentados continuassem
a receber seus benefícios. Afinal, com a Varig parada, todos perdem.
Com a liquidação dos planos I e II da Varig, a SPC confiscou a poupança
pre- videnciária dos funcionários da ativa. E os aposentados receberão o
que restar da divisão do patrimônio existente no fundo – 10% para o
plano I e 40% para o plano II.
Assim, em pouco tempo, as aposentadorias da Varig deixarão de existir.
Serão enterradas juntamente com algumas verdades que poderíamos conhecer
sobre a má gestão de nosso fundo de pensão”.
As previsões se confir- maram e hoje há uma comunidade de contribuintes
de um fundo de pensão – 70% com mais de 60 anos numa profissão que não
os absorve mais – vivendo num verdadeiro inferno, vendendo o que podem e
recorrendo à ajuda de parentes.
Se o governo não agir rapidamente, pagando a dívida já definida pelo STJ
à Varig e se o Supremo Tribunal Federal não confirmar a decisão da
desembargadora Neuza Alves da Silva, todo o sistema de fundos de pensão
complementar estará irremediavelmente desacreditado.
Isso afetará todos os fundos: No Brasil, temos 360 entidades de
previdência complementar, sendo 324 patrocinadas por empresas privadas.
Seu patrimônio chega a R$ 345 bilhões (18% do Produto Interno Bruto).
Esses fundos têm um peso gigantesco na vida econômica do país e não é
bom para eles que o Aerus desapareça em face da incúria de sucessivos
governos e da má fé das empresas patrocinadoras. Não serão apenas as 8
mil famílias do Aerus que irão para o sacrifício, outras milhares
poderão ter a mesma sorte, como aconteceu com as entidades de pecúlio de
militares (Montepio, Capemi e Gboex, entre outros), na década de 70.
Além disso, estamos diante de crimes gravíssimos contra a economia
popular. Além de repor os prejuízos dos aposentados e pensionistas, é
dever das autoridades procederem a uma rigorosa investigação sobre todo
esse processo de desrespeito da Lei e do direito dos cidadãos.Oito meses
depois do leilão, o grupo que se registrou como Aéreo Transportes Aéreos
e representava o Martlin Paterson, um fundo abutre norte-americano,
através da Varilog, outrora subsidiária da Varig, vendeu a Nova Varig
por U$ 320 milhões à Gol, que espera ganhar uma empresa sem passivo e de
posse dos slots, que a arrematante quer manter com o artifício da
mudança do sua razão social para VRG S.A.
Com a redução da participação da Varig no mercado, os 40 milhões de
passageiros/ano ficaram nas mãos de apenas duas companhias – a TAM e a
Gol – nos vôos domésticos, enquanto o mais de milhão de passageiros e as
cargas internacionais migraram em grande parte para companhias
estrangeiras.
Nesse cobiçado mercado externo, nenhuma companhia brasileira estava em
condições de substituir a Varig, tanto em equipamentos, como em função
do acordo sobre slots (pousos e decolagens) que passam automaticamente
da empresa parada para a primeira da fila de espera.
Formando praticamente um cartel, as duas companhias brasileiras têm
grande respon- sabilidade no “apagão aéreo” e no desconforto dos vôos,
que passaram a recorrer a um número excessivo de conexões, dobrando em
muitos casos o tempo de deslocamento de um passageiro.
Elas estão trabalhando com sua capacidade máxima, mas não conseguem
suprir seus compromissos, tornando-se freqüentes cancelamentos de vôos.
Numa das crises, a TAM alegou que tinha 6 aeronaves em manutenção.
No início de 2007, TAM e Gol abocanhavam juntas 87,59% do mercado
doméstico. A TAM tinha 47,33% e a Gol, 40,26%. A Nova Varig chegou a
4,57%, à frente da BRA (2,98%) e da OceanAir (2,04%).
Nas linhas para o exterior, a presença das empresas brasileiras é
irrelevante. Entre elas, a TAM detinha 61,01%, contra 18,94% da Gol,
11,82% da Nova Varig, e 7,89% da BRA. Para se ter uma idéia do que isso
representa, a Nova Varig, com 11,82% viaja para apenas quatro cidades –
Frankfurt, Caracas, Bogotá e Buenos Aires.
Ao descartar-se de dois terços do pessoal que encontrou na Varig, a
arrematante pôs na rua profissionais altamente quali- ficados em todos
os segmentos da aviação comercial.
Ainda no início de 2006, apesar do agravamento de sua situação e da
deliberada manifes- tação do governo federal de negar a ela qualquer
apoio (embora fosse devedor de uma pequena fortuna por decisão já
definida no STJ), a Varig ainda era a companhia preferida dos brasi-
leiros. Isto é, seis meses antes de ir a leilão, a Varig ainda operava a
maior e mais completa rede de linhas do Brasil, servindo a 40 cidades.
Para o exterior voava diretamente para 26 destinos em 20 países, de
quatro continentes.
Compra pela Gol, uma grande incógnita
Ao completar 79
anos, registrava o transporte de mais de 210 milhões de passageiros, em
mais de 7 milhões de horas voadas, somadas em mais de 2 milhões e
quinhentos mil vôos, com o que seus aviões deram o equivalente a cerca
de 115 mil voltas ao redor da terra. Só nos vôos internacionais, a Varig
faturava U$ 1 bilhão e 200 milhões anualmente.
Em 1999, recebeu o prêmio de Melhor Companhia Aérea da América Latina,
Central e Caribe e também da Melhor Transportadora de Carga Aérea das
Américas no Século 20.
A Varig era uma empresa completa e até hoje sua escola de pilotos
funciona, atendendo a profissionais de outras empresas, inclusive do
exterior. Sua subsidiária de manutenção, a VEM, era um modelo que
prestava serviços também a companhias estrangeiras.
Em muitas cidades do exterior, servia como verdadeiro consulado do
Brasil. No país, operava várias rotas reconhecidamente deficitárias,
mas, com isso, prestava serviços ligando algumas regiões, atendendo a
pedidos do próprio governo.
Quando foi a leilão, em julho de 2006, tinha tudo para se recuperar com
um investimento inferior a R$ 1 bilhão. Os próprios empregados, através
do TVG - Trabalhadores do Grupo Varig – apresentaram várias
alternativas, incluindo a compra da companhia para que eles próprios
pudessem assumi-la com o mínimo de demissões, com aconteceu com a
United, nos Estados Unidos.
A sua compra agora pela Gol, além de cristalizar o oligopólio tão
pernicioso, está longe de ser a “solução”. As duas empresas representam
filosofias de serviços praticamente opostas. E não há precedentes sobre
operações em vôos de longa distância no modelo de “baixo custo”, que
significa inclusive baixos salários.
A irlandesa Ryanair, que opera apenas na Europa com custos mais baixos
do que a Gol, tentou em vão atrair passageiros para vôos longos. Uma
viagem de avião transatlântica exige cuidados especiais e equipes
altamente preparadas, devido ao cansaço e à tensão que acomete muitos
passageiros. O ato de servir refeições e bebidas, como oferecer produtos
de free shop, exerce efeitos imperceptíveis de grande alcance
psicológico.
Estamos entrando na era dos super-jatos, com até 800 passageiros, e não
há espaço para quem pensa que avião é um ônibus que voa. Uma coisa é
fazer uma viagem de uma hora com uma barra de cereais e um copo dágua.
Outra é manter um clima de atividades, mesmo quando o equipamento é
dotado de televisões de bordo.
A Varig mantinha equipes de experiência comprovada, razão pela qual até
hoje, mesmo com apenas 17 aparelhos, conserva uma fidelidade consistente
de sua clientela. Os tempos mostraram, por exemplo, que o passageiro se
sente muito mais seguro com uma equipe de comissários mais maduros do
que com noviças, que recebem treinamentos precários e aceitam salários
de menos de R$ 1000,00, isto é, menos de três mínimos.
A questão da redução dos custos é possível com maior controle de
despesas e programação inteligente dos vôos. Além disso, é óbvio que a
redução se dá com maior tranqüilidade na proporção da ocupação de suas
poltronas.
Segundo números do mercado, a Gol já não registra o crescimento dos seus
primeiros anos, quando ocupou os espaços a Vasp e da Transbrasil. Ao
contrário, é a TAM quem se jacta de maior crescimento em 2006, a partir
de abril.
Em abril de 2007, os números divulgados pelo site “Aviação Brasil”
apontava:
A TAM aumentou em março sua participação de mercado nos vôos domésticos
para 51,72%, maior patamar nesse segmento alcançado pela companhia em
seus 30 anos de história e ampliou a liderança conquistada há 45 meses.
O crescimento foi de 7,2 pontos percentuais em relação ao mesmo período
de 2006 e de 4,4 pontos percentuais sobre fevereiro deste ano, de acordo
com as estatísticas de tráfego aéreo divulgadas pela ANAC (Agência
Nacional de Aviação Civil).
A taxa de ocupação (load factor) nos vôos domésticos da Companhia em
março foi de 69%, enquanto a média no setor foi de 64%. No acumulado dos
três primeiros meses do ano, a ocupação foi de 70%, índice acima da
média do mercado.
No segmento das linhas internacionais operadas pelas companhias aéreas
brasileiras a TAM elevou seu market share para 62,86% em março de 2007,
com crescimento de 39,8 pontos percentuais na comparação com o mesmo mês
de 2006 e também ampliou a liderança conquistada neste mercado entre
companhias brasileiras desde julho do ano passado.
Outros destaques nas estatísticas da agência reguladora relativos a
março de 2007:
1. O volume de passageiros-quilômetros transportados (RPK) pela TAM nos
vôos domésticos aumentou 26,5% na comparação com março de 2006 enquanto
o setor registrou crescimento de 8,9% no mesmo período. A oferta de
assentos-quilômetros (ASK) da TAM cresceu 26,3%, enquanto o aumento no
setor foi de 13,2%.
2. Nos vôos internacionais o load factor da TAM foi de 70% em março,
acima da média de 66% do setor. No acumulado dos três primeiros meses do
ano, a ocupação foi de 71%, índice superior à média de 68% do mercado. O
volume de passageiros-quilômetros transportados (RPK) pela Companhia
cresceu 68,7% em março, enquanto a sua oferta de assentos-quilômetros (ASK)
aumentou 85,9%. Na indústria como um todo, esses indicadores recuaram,
respectivamente, 38% e 27,3%.
3. A companhia manteve a condição de maior companhia aérea do Brasil
alcançada desde abril de 2006, quando passou a ser responsável pelo
maior volume de tráfego aéreo do país. Em março último, somando-se os
vôos domésticos e internacionais, atingiu 2.572.326 mil
passageiros-quilômetros transportados, equiva- lentes a 59,2% de market
share total.
Esses números, no entanto, escondem um dado relevante, que foi
responsável pelo crescimento de demanda nos últimos quatro anos: os
órgãos públicos, particularmente do governo federal, usaram quase que
exclusivamente a TAM, a transportadora preferida do PT e da CUT.
Durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva foram gastos R$
2,5 bilhões com passagens aéreas, segundo dados do Ministério do
Planejamento, que não incluem as despesas do Congresso Nacional e do
Poder Judiciário. Para comparação, o faturamento da TAM em 2006 foi de
R$ 5 bilhões e o da Gol, de R$ 3,3 bilhões. Os R$ 2,5 bilhões só se
referem ao governo federal. Nos Estados e municípios também são elevados
os gastos com passagens aéreas.
Somente Brasília, onde seria pequena a necessidade de viagens por estar
na capital federal, foram gastos R$ 98,2 milhões nos últimos quatro anos
em passagens aéreas.
A preferência alegada pela TAM se dá porque, ao contrário da Gol, ela
oferece mais conforto e melhores serviços aos passageiros, além de
beneficiá-los pessoalmente com seu programa de milhagem, que a
concorrente não tem. A transferência para os governos desses bônus
atrativos já vem sendo reclamada pelo Ministério Público Federal.
Em outras palavras, os governos são os maiores clientes das companhias
aéreas e podem ser decisivos na produtividade dos seus vôos. Eles fazem
licitações para agências encarregadas de comprar as passagens e não para
as transportadoras. As agências podem perfeitamente direcionar as
compras finais.
Temos então que o poder público é O SENHOR ABSOLUTO do setor de
transportes aéreos – não apenas como poder concedente, mas também como
cliente e regulador.
Vimos claramente que os vários governos que se seguiram desde 1990
trabalharam ostensivamente contra o Aerus: primeiro, eximindo as
companhias do recolhimento de uma taxa sobre as passagens num ato
administrativo do DAC totalmente desprovido de base legal; dando
cobertura aos calotes das empresas, ao afastamento sem ônus da Vasp e
TAM, liberando a Varig virtualmente de seus obrigações, numa decisão da
Secretaria de Previdência Complementar, adotada em na última semana do
segundo governo FHC.
Terceiro, procedendo a liquidação do fundo em abril de 2006, quando os
trabalhadores do Grupo Varig ofereciam suas poupanças para manter a
empresa funcionando e, com isso, abrir caminho para a normalização das
contribuições da patrocinadora ao Aerus.
Ao contribuir para a quebra do Aerus, o governo federal está afetando
todo o sistema de previdência complementar, que passa a ser visto com
reservas por seus integrantes, já assustados, no caso das estatais, com
as mudanças do modelo de benefício definido por contribuição definida.
Em relação à empresa em si, apesar de ser um patrimônio do povo
brasileiro, como sentenciou Leonel Brizola, o governo federal preferiu
deixá-la à própria sorte, quando tinha pelo menos duas soluções de
emergência à mão: a estatização saneadora e a entrega ao grupo de
empregados reunidos em torno de suas associações profissionais para que
estas contribuíssem para a recuperação, como aconteceu em outros países,
inclusive nos Estados Unidos com a United Aerlines, a Delta e a própria
American, que chegaram a falir em no início do século.
A recompra pela Gol, menos de 9 meses depois do leilão a preço de
banana, ainda não está devidamente esclarecida. Joaquim Constantino
Neto, da família proprietária da Gol, companhia garantiu ao governador
Sérgio Cabral, no dia 2 de maio, que a partir de dezembro 14 novos
aviões se somarão à frota de 17 da “Nova Varig”, o que abrirá caminho
para 2500 empregos, a sua maioria no Rio de Janeiro, prometendo absorver
nessas contratações preferencialmente demitidos que estão até hoje a ver
navios.
Já o presidente da Gol, Constantino Jr, em entrevista à revista VEJA,
foi incisivo:
“Nós entendemos que a transação compreende a compra de uma empresa VRG,
que opera a marca Varig, livre de qualquer passivo. É dessa forma que
concluímos a negociação, e entendemos que o risco é mínimo, na medida em
que os trabalhadores fizeram parte desse plano de recuperação e
concordaram (LEIA-SE SINDICATOS E INTERVENTOR DO AERUS) com a venda da
unidade produtiva isolada nas condições previstas no leilão. Esse
princípio contido na lei, de que os credores decidem o futuro da
empresa, foi o que norteou o leilão. E nós acreditamos que ele será
preservado”.
Acenar com o “reaproveitamento do pessoal demitido”, desconhecendo
obrigações elementares parece mais uma cortina de fumaça para
desmobilizar e dividir os demitidos, muitos dos quais estão passando
necessidade – até porque jamais poderiam imaginar que uma companhia que
até poucos meses liderava o mercado fosse objeto de um plano baseado no
CALOTE TRABALHISTA.
Como demonstraram as associações de procuradores e magistrados
trabalhistas, a novíssima Lei de Recuperação das Empresas (11.101/05)
não suprime os direitos dos empregados, garantidos por pelo menos dois
artigos da CLT, ainda em vigor:
“Art. 10. Qualquer alteração na estrutura jurídica da empresa não
afetará os direitos adquiridos por seus empregados.
Art. 448. A mudança na propriedade ou na estrutura jurídica da empresa
não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados.”
É lícito imaginar que a Gol pode estar blefando. Com o anúncio da
compra, suas ações subiram quase 10% num só dia na Bovespa. E seus
diretores insistem em que contarão com a prorrogação do prazo de julho
para dezembro para operar os slots internacionais da antiga Varig, que,
por si, como já demonstrei, não passarão para ela de forma mansa e
pacífica, mesmo que já se disponha a ocupá-los no prazo estabelecido
pelos regulamentos internacionais.
Em entrevista ao jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, o German Efromovich,
presidente do Grupo Synergy, , que recuperou a Avianca colombiana,
reassumiu a OceanAir, atualmente no vermelho, com um libelo contra as
políticas adotadas pela ANAC, que favorecem claramente ao surgimento de
um “duopólio”.
“O duopólio nos levará a sair de certas rotas e o resultado será aumento
de tarifas para o usuário. Como órgão regulador, a Anac tem de tomar
providências.
Existia uma
norma, que foi abolida, que dizia que em aeroportos de grande demanda
ninguém podia ter mais de 40% dos slots. TAM e Gol controlam mais de 98%
de Congonhas e na hora de distribuir o resto, elas também disputam. Sem
regulação, só os muito grandes sobrevivem”.
Ele admitiu que chegou a pensar em comprar a Varig, mas sua assessoria
fori mais prudente. “Nossos advogados nos garantiram que não é possível
não assumir as dividas. A Varig não foi recuperada, ninguém recebeu um
tostão. Nossa Justiça chama isso de recupe- ração. Moralmente é vergon-
hoso. Não existe velha e nova Avianca.Todos os credores estão sendo
pagos”.
Essa também é a
posição da BRA, que detém 2,8% do mercado: “”O Brasil precisa de três ou
quatro companhias aéreas”, afirmou o presidente da BRA, Humberto
Folegatti. “Se o governo quer ter mais de uma ou duas companhias, tem
que dar as condições de competição. E isso envolve necessariamente a
democratização de Congonhas”,
A TAM já contava com a redistribuição das linhas internacionais para
lançar vôos para Frankfurt. Para isso, tem negociações avançadas com um
acordo operacional com a Lufthansa, que ficaria responsável pela
distribuição dos passageiros em território europeu. Uma parceria nessa
rota é tida como fundamental, pois só três de cada dez passageiros têm a
própria cidade alemã como destino final.
Apesar de beneficiária desse duopólio, a TAM vai mover seus pauzinhos
para impedir que a ANAC prorrogue os prazos para a ocupação dos slots da
Varig pela Gol e o CADE autorize a compra.
Isto porque para especialistas em aviação e dentro do próprio governo, é
consensual a avaliação de que a Gol (somando as operações da Varig)
assumirá a liderança do mercado nacional no segundo semestre. Uma alta
autoridade aeronáutica garantiu ao CORREIO BRAZILIENSE que, só com a
distribuição no Brasil dos passageiros provenientes de rotas
internacionais da Varig, a nova empresa surgida com a aquisição da Gol
ganhará 15 pontos percentuais de participação no mercado nacional.
Em relação aos aposentados do Aerus, a posição da Gol é de total
desconhecimento, como admitiu o sr. Joaquim Constantino Neto, após
almoçar com o governador Sérgio Cabral. ““Não tenho informações . Não
tenho conhecimentos sobre o Aerus”.
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Ameaça de um epílogo macabro Em suma, não há mais como o governo federal virar as costas
para o intricado ambiente que hoje permeia a aviação comercial
brasileira como conseqüência direta da desfiguração da Varig e
da sua sujeição a “tacadas” inescrupulosas de conhecidos
especuladores, ávidos de dinheiro fácil. |
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PEDRO PORFÍRIO é jornalista, escritor e
teatrólogo. Atualmente, exerce seu quarto mandato como vereador
à Câmara Municipal do Rio de Janeiro. |
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